Introdução
Mutações Genéticas
O gene é um segmento da molécula de DNA que contém informação para uma determinada característica de um organismo, que é codificada por sequências de bases que irão sintetizar proteínas específicas. As mutações génicas ocorrem quando se verifica uma alteração pontual ao nível dos nucleótidos de um gene, constituindo-se, deste modo, um alelo desse gene, isto é, uma nova versão.
Estas alterações génicas podem ser classificadas como numéricas, caso haja uma modificação no número de genes, ou como estruturais, podendo ocorrer neste caso uma substituição, uma deleção ou uma inserção.
Por fim, as mutações génicas tanto podem passar despercebidas, devido à redundância do código genético, como podem levar a casos de neoplasias, ou seja, a uma célula somática mutante multiplicar-se descontroladamente, colocando em risco a vida do indivíduo.
Mutações Cromossómicas
O ser humano possui 46 cromossomas. Os cromossomas contêm toda informação genética dentro dele, e no seu conjunto formam o DNA. Dois desses cromossomas são denominados por sexuais, conhecidos como X e Y, sendo que são estes que determinam o sexo ( XX - rapariga; XY - rapaz).
As mutações cromossómicas ocorrem ao nível dos cromossomas, envolvendo alteração de grandes quantidades de genoma. Podemos distinguir dois grandes grupos conforme a alteração que ocorra. Assim, as alterações podem ser:
· Estruturais, quando afetam a estrutura de um ou mais cromossomas de uma célula.
· Numéricas, quando afetam o número de cromossomas de uma célula.
Alterações Estruturais:
Podem ocorrer de várias formas. Sendo elas:
· Deleção - Quando se perde uma parte do material genético;
· Duplicação - Quando se dá a repetição de um segmento originando uma leitura dupla de genes;
· Inversão - Quando um segmento sofre uma quebra e regressa invertido á sua posição original;
· Translocação - Ocorre quando há transferência de porções de genes. A translocação pode ser simples ou recíproca. Na translocação simples há transferência de uma porção de genes para um cromossoma não homólogo. Na translocação recíproca (a mais comum) há trocas entre dois cromossomas não homólogos.

Alterações Numéricas:
Consistem na alteração do número de cromossomas, quer no excesso, quer no défice dos mesmos. Este tipo de mutações pode ocorrer durante a meiose, devido à não disjunção dos homólogos na meiose I, ou então quando não ocorre disjunção dos cromatídeos na meiose II.
Podem dividir-se em dois grupos:
· Euploidias - Há uma perda ou um acréscimo de um ou mais genomas. A alteração é um múltiplo de n, ou seja, o número de genomas é múltiplo do número haplóide inicial. A poliploidia consiste no acréscimo de dois ou mais genomas.
· Aneuploidias - Não envolvem conjuntos de cromossomas inteiro, mas sim, o acréscimo ou perda de apenas um ou mais cromossomas. A principal origem é a não disjunção meiótica. Podem ser de vários tipos: Nulissomia (2n-2), Monossomia (2n-1), Trissomia (2n+1) , e assim sucessivamente.
Existem dois tipos de mutações numéricas:
- Autossómicas- mutações que ocorrem ao nível dos cromossomas autossómicos (todos os cromossomas das células exceto os cromossomas sexuais).
- Sexuais- mutações que ocorrem ao nível dos cromossomas sexuais, neste caso apenas o par 23 é afetado.
A síndrome de Turner é um exemplo de uma mutação cromossómica numérica sexual, mais precisamente uma Aneuploidia.
Síndrome de Turner
Afeta aproximadamente 1 em cada 2500 nascimentos vivos e estima-se que cerca de 1% das pessoas que a possui sobrevive.
O Síndrome de Turner é uma anomalia cromossómica bastante rara que afeta somente indivíduos do sexo feminino.
O que é?
As características do Síndrome de
Turner foram descritas, inicialmente, por Bonnevie e Ullrich e, posteriormente, por
Turner em 1938. O cariótipo foi definido em 1959, sendo possível desde essa
altura o diagnóstico citogenético (ausência parcial ou total do cromossoma X).
O Síndrome
Turner é uma monossomia do cromossoma “X”, o que significa que ao nascerem, as mulheres têm apenas um cromossoma “X”, em vez de dois, como o esperado. O síndrome é identificada no momento do nascimento, ou antes da puberdade
pelas suas características fenotípicas distintivas.
Em geral resulta de uma
não-disjunção (falta de separação e ordem dos cromossomas) durante a formação
do espermatozóide. A constituição cromossómica mais frequente é 45, X (45
cromossomos com falta de um cromossoma X), não apresentando, portanto,
cromatina sexual.
Tamanha
diferença na quantidade de cromossomas leva a uma série de complicações. Poucas
são as crianças que conseguem nascer, e as que sobrevivem precisam de lidar com
diversos sintomas. Contudo, caso a criança sobreviva, se receber o devido
tratamento é possível levar uma vida relativamente normal.
Atualmente, a
síndrome de Turner é responsável pelo maior número de abortos espontâneos por
síndromes.
Agente causador
Dos 46 cromossomos existentes no genoma humano, dois são os sexuais e irão determinar se o bebé será menino ou menina. Normalmente as mulheres apresentam dois cromossomas iguais, “XX“. Já as portadoras da síndrome de Turner possuem apenas um cromossoma “X”. Algumas vezes o outro está presente, porém de forma incompleta.
Assim, as alterações genéticas da síndrome de Turner podem ser originadas por:
- Monossomia completa
Completa ausência de um cromossoma X. Geralmente ocorre devido a um erro no esperma do pai ou no óvulo da mãe. Isso resulta em todas as células do corpo com apenas um cromossoma X.
- Mosaicismo
Alguns dos casos de Síndrome de Turner apresentam o cariótipo em mosaico. Isso significa que a paciente apresenta em células normais (46,XX) e células com a monossomia do cromossoma X ao mesmo tempo (45,X). Em alguns casos, há um cromossoma X completo e um exemplar alterado.
- Material de cromossoma Y
Algumas células contêm uma cópia do cromossoma X, enquanto outras células têm uma cópia do cromossoma X e algum material de cromossomo Y. A presença de material de cromossoma Y aumenta o risco de algumas doenças.
Fenótipo destes indivíduos
- · Baixa estatura;
- · Pescoço largo unido aos ombros com excesso de pele;
- · Céu-da-boca estreito e elevado, maxilar inferior menor;
- · Pálpebras caídas;
- · Olhos secos;
- · Manchas escuras (especialmente na face);
- · Pouco cabelo na parte de trás da cabeça;
- · Inchaço das mãos e pés, especialmente ao nascer;
- · Deformidades nos cotovelos;
- · Unhas fracas;
- · Má formação das orelhas;
- · Retardo do crescimento;
- · Dificuldade em situações sociais, como problemas em entender as emoções ou reações de outras pessoas;
- · Órgãos sexuais e caracteres sexuais secundários pouco desenvolvidos (devido a falta de hormonas sexuais);
- · A maioria são estéreis, pois não menstruam, e como têm ovários pouco desenvolvidos não produzem oócitos.
Possíveis consequências
- Problemas cardíacos;
- Risco aumentado para diabetes e hipertensão;
- Perda de audição;
- Problemas renais;
- Disfunções da tiroide;
- Doença inflamatória intestinal, e doença celíaca;
- Desenvolvimento anormal dos dentes;
- Retrognatismo;
- Estrabismo e hipermetropia;
- Escoliose, cifose e osteoporose;
- Infertilidade ou, se ocorrer, gravidez de risco;
- Dificuldades de aprendizagem.
Tratamento e
Prevenção das Complicações
Perante a
suspeita clínica deve realizar-se o estudo citogenético e uma ecografia
pélvica, a fim de permitir a identificação dos ovários. Esta avaliação é
importante, em crianças com material celular Y, e mesmo mulheres sem células da
linha Y no seu genoma, pois possuem risco de cancro, pelo que se deve manter uma
vigilância adequada.
Os problemas
cardíacos podem implicar cirurgias corretivas, particularmente da coartação da
aorta.
As anomalias renais devem ser examinadas ecograficamente, e se
presentes orientadas para uma consulta de nefrologia. A hipertensão arterial
para além de estar associada aos problemas cardíacos, pode também ser
consequência da patologia renal e deve ser vigiada.
A baixa
estatura e o atraso da puberdade carecem de tratamento hormonal. A orientação
precoce para a consulta de endocrinologia é importante, visto que para além dos
problemas médicos que apresentam, também estão associadas a questões
comportamentais.
Apesar de uma
inteligência normal ou até acima do normal, estas crianças podem apresentar
dificuldades na aprendizagem, particularmente no cálculo matemático,
visualização espacial e na coordenação motora. Desta forma, o rastreio de
alterações audiovisuais deve ser realizado.
Contudo, pode
ser necessário realizar outros tipos de tratamento, de acordo com as alterações
que o individuo apresenta.
Aconselhamento
Genético e Prevenção (curiosidades)
A
infertilidade afeta quase 95% das mulheres com o cariótipo (45,X) e 75% das mulheres
com o cariótipo (45,X/46,XX) (mosaicismo). Apesar da infertilidade afetar a
grande maioria destas mulheres, estas podem recorrer a métodos alternativos de
concepção.
O risco de ocorrência do síndrome de Turner não aumenta em futuros filhos de um casal que
já tenha uma filha com esta síndrome. No entanto, nas mulheres férteis com o síndrome, existe um risco de anomalias cromossómicas em futuros filhos e como
tal deve ser proposto o diagnóstico pré-natal.
Não existem
muitas medidas preventivas a serem tomadas, visto que o síndrome de Turner é
decorrente de uma gametogénese defeituosa.
Atualmente é
possível detetar-se a doença ainda na gestação, através da análise de
cromossomas, através de exames pré-natais. Após detetada a doença, tanto os pais
como a criança precisarão do devido acompanhamento médico.








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